Texto de Catálogo 2020


O Curt’Arruda tem convidado uma pessoa que admira, para escrever o texto introdutório do catálogo da edição em causa. O ponto de partida tem sido a Ruralidade, Arruda dos Vinhos, e claro, o Cinema. Aquilo com que temos sido presenteados ao longo dos anos, é muito mais do que um simples texto, é uma expressão de amizade, entusiasmo, encantamento, paixão, e tantas outras emoções das quais só podemos estar gratos. Este ano, à semelhança da primeira edição, é a voz do Curt’Arruda que aqui queremos deixar expressa.

Quando estamos perante a inexistência de algo, estamos ao mesmo tempo diante de todas as possibilidades que se nos oferecem, de todo um mundo possível. Portanto, o começo é um momento crucial. É onde colocamos e situamos todo o nosso ser, mesmo com as maiores incertezas quanto ao caminho a percorrer. Assim, em 2014, demos o primeiro passo nesse mundo de possibilidades. Mas mais importante do que o ponto em que nos encontramos hoje, tem sido toda a viagem e aprendizagem coletiva ao vosso lado. Sem o vosso apoio, a semente que lançámos há seis anos não tinha florido e começado a dar os primeiros frutos. Todos juntos, temos tido um papel marcante no cultivar da cultura arrudense.

A criação de uma comunidade e de um sentimento de pertença foi sempre uma prioridade do Curt’Arruda, ao contrário da individualidade e isolamento crescentes na nossa sociedade. Porém, com a pandemia, vivemos um período em que a relação com o outro e a comunidade está a sofrer um forte abalo. Para o Curt’Arruda esse abalo começou a 5 de outubro de 2019 – data de início de um novo ciclo para todos nós. Mas em março deste ano surgiu um abalo diferente. O novo ciclo, é agora duplamente novo. No entanto, a nossa união não se demoveu e continuámos a trabalhar na edição que agora vos apresentamos.

Este é um momento sem precedentes, um presente em sobressalto onde o medo, devido à incerteza e à confusão, ganhou um lugar de destaque. Tudo parece estilhaçado e sem sentido, sobretudo quando se fala num novo normal ou num voltar ao normal. Temos consciência da dupla responsabilidade que nos espera: 1) continuar o legado que o Joel construiu ao nosso lado; 2) respeitar o cinema, a cultura, e acima de tudo, todos os arrudenses e quem nos visita em tempo de pandemia.

O Curt’Arruda não é só cinema. É também vida e algo que se tem tornado cada vez mais relevante para nós, é estar no mundo e estar em casa ao mesmo tempo. Foi aqui, na nossa casa, que já chorámos de alegria diante de um enormíssimo aplauso da vossa parte. Foi também aqui, na nossa casa, num momento impossível de nomear adequadamente, que procurámos refúgio, proteção e conforto. Não escondemos a dor e chorámos juntos a ausência num momento catártico e de superação, que ficará para sempre inscrito em nós.

Se pretendemos com o Curt’Arruda abrir espaço à reflexão e tornar a sala um lugar de transformação, para que possamos voltar ao mundo exterior com os sentidos mais apurados, foi o Joel que nos fez colocar as questões últimas, as questões que nos lançam para fora de nós.

Conhecido pelo seu jogo de luz e sombra, o cinema dá-nos a ver o visível e o invisível que ele próprio contém. Esta dicotomia completa-se no encontro com as nossas imagens mentais e as nossas memórias. Este ano, na organização do festival, muita companhia nos tem feito o invisível, não das imagens, mas do que floresce em nós dia após dia num mistério profundo. Falar de memórias é também falar da sala onde acontece o Curt’Arruda. Não só pelo lado histórico de antigo cinema em Arruda dos Vinhos, mas também por o primeiro passo ter sido dado neste local com a exibição do filme A Tua Última Morada (em jeito de confidência, o Joel chamava-lhe atum, e para nós, olhar uma lata de atum nunca mais foi a mesma coisa).

Deste modo, a memória está intimamente presente no novo ciclo do Curt’Arruda. No entanto, podemos acrescentar a ideia de família e de renascimento, presentes na identidade gráfica desta edição. Vemos fotografias, pessoas, gestos, vemos o tempo e vemos a terra, elemento tão caro à ruralidade e que ganhou um novo valor – o da felicidade. É nesta comunhão de indivíduos com a natureza que queremos lutar e estar engajados num compromisso para com a vida na terra e a vida da terra. Mas vemos mais, vemos a família do Joel, a quem gostaríamos de dedicar a edição deste ano.

Curt’Arruda