Texto de Catálogo 2017


Diz-se que começar um texto com uma citação é a tradução de uma mente débil para pensamentos livres. Como tal, não o irei aqui fazer. Pois se assim fosse, estaria a trair a própria essência do que motiva estas breves palavras.

Falaremos de cinema. De criação. Do plasmar em imagens o que abraça conceitos e sensações, poesia e agonia, tristeza e alegria. Falamos de ver o efémero, tanto quanto o de observar o perpétuo. A sétima arte é metáfora da velocidade. Sinónimo de um mundo que, na sua constante mutação, se integra numa depurada esquizofrenia dos sentimentos, incapaz de se autorizar a simplesmente parar. Contudo, encontra, a espaços e por vezes de forma inesperada, uma ferramenta que nos obriga a estar. A simplesmente estar. Cumprimos, de forma inconsciente, o papel de um distante voyeur. Invadimos a mente de personagens fictícias, que nos convidam a viagens; caminhamos numa outra realidade; descobrimos novos mundos; escutamos outros sons, pintamos outras telas.

Palcos que nos carregam em introspeções.
Veículos que nos libertam do quotidiano.

Robert Bresson dizia que o cinema abraça a escrita em movimento. Mas não é só. Conserva em si a capacidade de nos fazer sonhar. E como é importante não o deixar de fazer. O cinema, não raras vezes, deixa-nos admirar com espanto mundos mais de acordo com os nossos desejos. Tanto quanto nos mostra cruéis realidades, ou como nos coloca em confronto com o que de mais íntimo possuímos. Não se esquiva também a parodiar o real, não temendo a hipérbole visual, tampouco se desliga da mediocridade criativa. No fundo, o cinema é somente humano.

No entanto, é também produto de visões específicas. Dos seus criadores. Dos seus protagonistas.
Da coragem, loucura e da ousadia. Neste pressuposto, como não aplaudir aqueles que, com maior ou menor afinco, se dedicam à dinâmica de uma pequena estória? Aqueles que, reduzindo o tempo da sua escrita em movimento, nos mantém ligados à multitude de sensações e sentimentos da sétima arte?

Sim, são curtas, senhores. Curtas-metragens que, sem recusar pretensão, se de nem como a melhor das traduções deste estágio civilizacional em que nos encontramos. Nelas se aglomeram e digladiam o corpus emocional e sensorial que define o cinema, condensado o tempo, de modo a que consigamos, de forma mais perene, não desligar deste(s) mundo(s) a que somos convidados a entrar. São pequenas pontes, que porventura de forma mais imediata e frontal, nos concedem um espelho: de uma sociedade que se tenta constantemente interpretar, e que nos projecta na moldura de um espelho, que, não amiúde, escolhemos não olhar.

E são também nestes pequenos momentos fragmentados da realidade, seja ela onírica ou factual, que percebemos constantemente, o porquê do cinema sonoro ter inventado o silêncio. Quantas são as curtas que se fazem somente de poesia silenciosa? Quantas serão aquelas que nos despertam para uma filosofia do quotidiano, simplesmente por nos mostrarem a sua beleza escondida defronte dos nossos olhos? Quantas vimos já que tanto nos mostram o horror e a comédia da condição humana? Quantas já nos emocionaram? A quantas já fomos indiferentes? E quantas já aplaudimos, impávidos, e, simultaneamente, em discreto agradecimento por terem conseguido mostrar tanto em tão pouco?

Aplaude-se então a permanência deste Festival.
De mais uma edição de um projeto, fruto de uma visão arriscada, mas indubitavelmente ousada, temerária e (porque não dizê-lo?) com uma saudável dose de loucura, aquela que, encontrando-se no ponto certo, cria a memória do eterno.

Arruda dos Vinhos recebe novamente uma iniciativa que constantemente se reinterpreta. Ganha em disciplina o que se moldou na coragem. Cresce na ambição, não deixando de abraçar a genuinidade que lhe deu a forma inicial. Sustenta-se na própria escala do território que a alberga, abrindo cada vez mais os seus braços para que a realidade dê lugar a outros sonhos.

Aplaude-se então a persistência dos seus criadores, tanto quanto a crença daqueles que, ano após ano, se juntam a uma equipa que concede uma nota de superação cultural de uma pequena vila que não se amedronta. Faz-se grande. Porque quer-se grande. Sem vedetismos. Mantendo-se genuína.

Aplaude-se, então e de pé, a 4ª edição do Festival Curt’Arruda, o resultado da tenacidade e da crença e que, tal como o cinema, continua focado naquilo que a imaginação lhe consegue extrair.

A conclusão deste texto? Não existe. Nem poderia existir, pois reporta-se ao cinema, que, tal como disse Orson Wells, “…não tem nem fronteira nem limites. É um luxo contínuo de sonho”.

Gustavo Val-Flores

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