Texto de catálogo 2016


 

Estamos todos juntos. É essa a nossa curta-metragem. A arte de aproximar, de unir e partilhar. Estamos aqui. Para ver a realidade que nasceu de um sonho. Para nos vermos tal como somos. Para nos vermos tal como gostaríamos de ser. Para aprendermos a ser e a estar uns com os outros. Respeitando a diversidade, o desacordo. Diferentes, somos o mundo inteiro. Estamos juntos na aprendizagem da generosidade, da tolerância, da liberdade, do compromisso com o mundo.

Não estamos aqui para assistir. Não somos apenas espectadores. Estamos aqui porque queremos fazer parte da transformação, porque queremos acrescentar. Estamos aqui pelas perguntas: a arte não responde. Estamos aqui por nós. O mundo diz-se na primeira pessoa do plural. E o cinema diz o mundo.

Somos os matemáticos da imaginação. Somos os mágicos da realidade. Somos.

No cinema não temos idade, raça, nacionalidade; não temos fronteiras, muros, distâncias. Tudo é perto. Tudo está perto. Ser, estar, ver, sentir, ouvir, imaginar, reflectir, entender, questionar, saber, recordar, eis alguns verbos. E de verbos se faz a Acção. Move-se o mundo. Move-se a vida e a morte. Move-se o humano que somos e o desumano que há em nós. Move-se tudo. As vozes, os olhares, os silêncios, os sentimentos. Rimos e choramos. Existimos.

O cinema aproxima-nos do individuo e da colectividade; é uma forma comprometida de estar connosco e com o Outro. As imagens são um reflexo. O cinema não envelhece. Nos filmes somos sempre crianças. Porque o olhar é sempre de descoberta. Porque a inocência é a força dos sonhos, e sem eles nada vale a pena.

Estamos aqui mas não somos números. Cada um de nós tem um nome, uma vida, uma morte. Cada um de nós tem alegrias e tristezas, sonhos e pesadelos, frustrações e medos, memórias (boas e más). Cada um de nós é uma máquina de filmar. E uma máquina de filmar é um modo de ver. O cinema, pelo olhar, é um modo de interpretação da História, pessoal e universal.

Não somos números, mera álgebra de todos os esquecimentos, e não poucos enganos, mas não nos esquecemos da tabuada porque todos os filmes são uma homenagem à infância. Da vida, do Homem, do mundo. Estamos aqui porque gostamos de aprender a somar e a multiplicar. Não gostamos de fazer contas de diminuir. Não temos vocação para ensinar contas de dividir.

Estamos aqui. Somos comunidade. Língua nova em construção, alfabeto que vem primeiro do coração. Arruda: morada nascente de todos os afectos partilhados.

O cinema engrandece. As formas ganham uma vida maior, e as palavras oferecem aos corpos o sentido e a grandeza humilde que a alma procura.

Cinema são cinco sentidos. Cinema é estar aqui; é olhar à volta e para dentro. Cinema é o avesso da solidão.

Aqui: Arruda. Lugar de esplendor entre o novo e o velho, a modernidade e a tradição; lugar primordial onde ecoam as crenças, as superstições, as vozes antigas, a lentidão do passado e a voracidade do presente. Estamos a construir o futuro, esse vale encantado.

Estamos no campo do cinema. A ruralidade não existe, porém, sem o erro, o defeito, a maldade, a inveja e a mesquinhez, o abandono e as ruínas de tudo. Porque o mal não é uma falácia urbana. E o cinema também é feito para revelar o Homem em toda a sua miséria.

A todos os que criaram este festival, a todos os que o apoiaram, a todos os que lhe deram vida, devemos uma homenagem. Uma homenagem simples. A todos nós. Sem pedantismos. Sem ideias de grandeza. Sem glorificações. E que agora tudo possa começar, para que, como num espelho, surja o Homem, esse maravilhoso ardil.

Nelson Quintino

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