Ciclo Realizador Convidado 2014 – Lauro António


Nascido em Lisboa a 18 de Agosto de 1942, licenciou-se em História na Faculdade de Letras de Lisboa em 1969.

Foi membro do Cine-clube Universitário de Lisboa e, mais tarde, director do ABC Cine-Clube, actividades que o levaram à crítica cinematográfica a partir de 1963 e, mais tarde, à coordenação da programação de algumas salas de cinema como “Estúdio Apolo 70”, “Caleidoscópio” e “foco”. foi diretor de festivais de cinema como “festival Internacional de Lisboa” em 1966”, “Festroia” em 1989, “festival internacional de Portalegre” de 1988 a 1990 e “FESTIVIANA, Festival Internacional de Cinema de Viana do castelo” em 1991.

Tem exercido regularmente a critica cinematográfica em inúmeros jornais e revistas e é crítico e ensaísta de cinema com mais de cinco dezenas de obras publicadas como “O Cinema Entre Nós”, “Cinema e Censura em Portugal” e “Horror Film Show – O Cinema Fantástico
nos Anos 70”. Foi coordenador do grupo “Cinema e Audiovisual”, do Ministério da Educação entre 1990 e 1993.

Foi membro de júri em diversos festivais de cinema nacionais e internacionais como “festival internacional de Cine de Humor de La Corunã, Espanha”, “Festival de Cinema Hungaro, Budapeste – Hungria” ou “Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto – Fantasporto – Prémio George Méliés”. Conselheiro para a área do cinema na TVI entre 1993 e 1997 foi autor do programa “Lauro António Apresenta” onde apresentava filmes da sua escolha. Diretor de programação do “Fórum Académico do Porto”, com sessões semanais no ISEP de 1997 a 2007.

Tem organizado ciclos dedicados a Richard Brooks, John Huston, Humphery Bogart, entre outros. Organizador do “cinema na reitoria” na reitoria da Universidade de Lisboa em 2013.

Começou a carreira de realizador em 1974 com a curta- metragem “Vamos ao nimas” tendo realizado desde então 13 longas metragens incluindo “Manhã Submersa” de 1980 que é ainda considerada como a sua obra maior e que teve estreia no festival de cannes e representou Portugal na edição dos Óscares de 1981 com a nomeação para melhor filme estrageiro.


VAMOS AO NIMAS – Portugal, 1975, 18’ 

A curta-metragem de lauro antónio “Vamos ao nimas” analisa a decadência dos cinemas populares. Ontem Tarzan. Hoje sexo e violência. Reconheçamos que não se ganhou com a troca. Um filme é, muitas vezes, rico pelas associações que provoca. O problema de “Vamos ao nimas” talvez seja uma síntese muito rápida entre três componentes ou fases: idade romântica ou ingénua – a venalidade que produziu Sartanas e quejandos – e uma espécie de terra prometida da cultura socialista ainda por estrear (vejam-se os programas e as duvidas desaparecem).

Fora isso, esta curta-metragem é um verdadeiro ponto de partida para o reencontro com um cinema de consumo popular tão digno como o folhetim e tão indispensável como o café do bairro.

O nimas dos bons tempos, no entanto, vai ter um destino menos risonho. figurará como uma das primeiras

vítimas da crise urbana. Não vai sobreviver nas cidades- dormitório e, em certas zonas, rapidamente transforma-se numa sombra. As novas receitas vão funcionar, impingindo a um consumidor desistente géneros adulterados. Os “westerns” passam a ser europeus, os policiais a elogiar as policias, o “karaté” substitui a aventura.

O cinema de qualidade virou as costas ao povo. Fugiu para a área dos bilhetes caros, dos centros comerciais ou de sala-estúdio de frequência “snob” com filmes para entendidos. Um pouco como em “A Última Sessão” de Peter Bogdanovich, os velhos cinemas foram morrendo. Salas destruídas. Portas encerradas.

As vezes substituídas por estabelecimentos de outro tipo, outras, pura e simplesmente, deixadas apodrecer. Na zona oriental, o “Max” deu mesmo lugar a uma igreja. Já será a altura de voltar a ser cinema? os tempos mudam.

“Vamos ao Nimas” é também uma nota sobre a mudança dos tempos. E dos ídolos que se esquecem, por mais sonhos que tenham povoado a “idade do ouro”? talvez sejamos mais modestos, outra idade.

Crise também dos heróis. A diversidade, a alegria e a possibilidade de sonho que eles exibiam transformaram- se em subprodutos em que só falava a capacidade de vingança e o primarismo dos instintos.

Pode-se dizer que o cinema da evasão se transformou numa mistela de embrutecimento. Para milhões e milhões de pessoas, o cinema que as esclareça e possa integrar ainda não chegou, até por não existir a dobragem. Um pouco como o doente que é envenenado enquanto espera pela vacina.

Mas “Casablanca”, Bogart, “O Comboio Apitou 3 Vezes”, Chaplin, os musicais? Pode-se dizer que foram verdadeiramente populares? ou populares para quem? Se atentarmos no baixíssimo índice de frequência das salas do nosso Pais, fácil será concluir que era ainda a uma camada relativamente reduzida, em estreia ou re-exibição, que eles falavam.

José Vaz Pereira

PREFÁCIO A VERGíLIO FERREIRA– Portugal, 1975, 14’ 

As qualidades do filme começam pela justeza do título, pois a palavra “prefácio” significa que a obra prefaciada não faz parte dele. Assim, as imagens e os sons da película como que apresentam o escritor, sem analisar a sua personalidade, a sua obra, os seus méritos e os seus deméritos.

Vergílio ferreira aparece e com ele os lugares e as personagens do seu peregrinar por este mundo. Mas não falam, a sua presença é meramente coral, evocativa. Em “off”, acompanhando as imagens mais num sincronismo interior do que num sincronismo técnico, ouve-se a voz do escritor e, nessa voz, explicam-se certos porquês sobre a vida e a obra, designadamente as suas opiniões sobre a criação literária e sobre uma visão do mundo
que escolheu. Acontece, quanto a mim, que os trechos escolhidos são admiráveis, mostrando, por obra e graça da voz do autor, que ele é, de facto, um grande criador do verbo, um pensador e um ficcionista de primeira água. Deixa-nos, digamos assim, o apetite de ir ler as suas obras e creio ser essa a melhor missão de qualquer prefácio: abrir o apetite para a leitura da obra.

Luís de Pina

Esta segunda curta-metragem realizada por lauro antónio tem para nós um significado muito particular: como para Vergílio Ferreira o Alentejo não é mais do que a projecção natural das suas pedras, também para Lauro António

A realização é a própria projecção na prática das suas reflexões sobre o cinema. Não há a teoria e a prática. Há o cinema, há uma tentativa de ler a distância que vai do olhar ao ver e há, naturalmente, o fazer aquilo que se descobriu. É para nós, habituados as estáticas biografias que o cinema nos tem dado, uma muito agradável surpresa o dinamismo que deste “Prefácio” transpira, a “decoupage” que o filme faz da frigidez de um autor e de uma obra. Saltando a barreira do formal, tentando ir ler nas próprias pedras que, elas sim, escreveram “Cântico Final”.

O Jornal

… Esse admirável e doloroso “Prefacio a Vergílio Ferreira”, do Lauro António, trabalho febril e tenso sobre a encenação da fala, sobre a representação do discurso (…).

José Camacho Costa

Lauro António fez uma curta-metragem sobre mim que eu não arriscaria muito em considerar uma obra-prima

Vergílio ferreira

O ZÉ POVINHO NA REVOLUÇÃO – Portugal, 1978, 18′

Nas imagens do filme perpassam os melhores desenhos dos cronistas políticos de Abril, alguns novos, outros consagrados, mas todos notáveis. Lá estão os desenhos sombrios de João Abel Manta, os traços searlianos de Cid, a perplexidades do Guarda Ricardo, o estilo “Gaiola Aberta” de Vilhena, as notáveis fotomontagens de Portela no “Jornal Novo”, que constituem um dos melhores momentos do nosso humor revolucionário.

Muitos outros aparecem também e eu diria que o trabalho de selecção dos desenhos é um dos méritos da fita, que procura uma forma própria de contar, misturando uma partitura musical tipicamente portuguesa e tocada de forma algo brincalhona com as situações descritas nos “cartoons” escolhidos. Parece-me mesmo que o melhor do filme é esta tentativa de articulação audiovisual, bem humorada, que dispensaria o texto se este não fosse preciso para explicar a evolução da própria política portuguesa.

Da sequência de imagens nasce assim, paralelamente, uma historia alegre da revolução, demonstrando que o povo, seguindo o Zé seu mestre, nunca deixou de rir nem de mostrar ao poder, seja ele revolucionário, provisório ou constitucional, que está sempre vivo e disposto e dizer o que tem a dizer. Ninguém consegue calar a sua voz, e aí o temos nos últimos anos, fotografado pela camara colorida e bem disposta do meu amigo Abel Escoto e filmado por gente nova que tem para mim o mérito de saber rir sem olhar a compromissos nem filiações.

Luís de Pina

MARIA SOBRAL MENDONÇA – Portugal, 2007

Seria impensável aproximar-me do universo pictórico de Maria Sobral Mendonça sem uma prévia aproximação do tema que a levou a desterrar-se para terras de Montemor- o-Novo, para, no frio mais intenso e no calor tórrido de um casarão sem nenhumas comodidades, executar em voluntária clausura, que durou um ano, trinta telas que nos falam do pecado e da culpa, que nos mostram mulheres cujos rostos apenas se adivinham, vestidas por coloridas vestimentas que escorrem passado, personagens e situações de dramas e culpas, de remorsos e libertações que tendem para a purificação do corpo e sobretudo da alma.

Mas o que mais me apaixona na obra de Maria Sobral Mendonça é a sua técnica, a busca de uma textura sólida, o exercício dos pincéis, da espátula, dos próprios dedos, a misturar as tintas, a desenhar uma sensualidade óbvia de cores e formas, a partir do figurativo para atingir uma quase abstracção, que é a busca da “alma” da tela. Há nesta pintora (e nesta mulher) uma complexidade de olhar e uma exigência de atitude que mistura o prazer
de viver e a sua recusa, que argamassa com as mesmas cores, numa mesma tela, virtude e pecado, que reúne, contra natura, a presença e a ausência, a vida e a morte, o branco e o negro, todas as cores e cores nenhumas, para no final a sensação ser de exaltação da vida e nossa própria exaltação. Mesmo quando nos quadros o negro domina e a viuvez impera. Na escuridão do luto, as mãos e os pés rasgam com violência a sua própria imposição.

Regeneração? Pois seja. Todos os caminhos são caminhos de algum Senhor para chegar a um mundo melhor. Cada um escolhe os seus caminhos e todos nos poderemos encontrar, lá no fim, na mesma meta.

Lauro António

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