Texto de Catálogo


A arte de sonhar  

Fiquei surpreendido quando um dos responsáveis pelo evento me convidou para escrever o texto que introduz o catálogo de 2018 deste já grandioso festival de cinema. Surpreendido… porque sou apenas um espetador, nada percebendo quase nada desta arte que alguns apelidam de sétima. Mas aceitei de imediato, não tendo, na altura, compreendido a razão.

No caminho para casa, o pensamento que me assaltava, talvez para me convencer de que tinha decidido bem, era que nunca poderia ter recusado por várias razões: primeiro, porque conheço todos os responsáveis do Curta desde pequenos, a maioria é da idade do meu filho mais velho, nutrindo por eles muito afeto e consideração; depois, porque as quatro edições anteriores foram uma agradável surpresa pelo risco, criatividade e qualidade; também porque é uma iniciativa que nasceu na minha amada terra, tendo sido logo abraçada pela autarquia e por uma população que cada vez mais adere a este espetáculo de três intensos dias; e, finalmente, porque há um ano que pretendo contradizer o autor do belíssimo texto que introduziu o catálogo da 4.ª edição do Curt’Arruda, o meu amigo e ex-aluno Gustavo Val-Flores.

Disse ele que “(…) começar um texto com uma citação é a tradução de uma mente débil para pensamentos livres.” Pois bem, caro Gustavo, a minha mente livre “moldada de coragem” discorda desse princípio e, por isso, iniciará este texto com uma citação de alguém que admira e cujo espírito criativo e competente é tão grande como o dos rapazes e raparigas que tiveram a audácia de pensar que seria possível realizar um festival de cinema rural em Arruda dos Vinhos.

Ora, determinou o citado autor que “A sétima arte é a metáfora da velocidade. Sinónimo de um mundo que, na sua constante mutação, se integra numa depurada esquizofrenia dos sentimentos, incapaz de se autorizar a simplesmente parar” (Gustavo Val-Flores, Catálogo da 4.ª edição do Curt’Arruda, 2017). Portanto, falamos de poesia, de um outro lado da poesia, porque também tem silêncios, memórias, eternidades, coragem, emoções, ritmos, sonhos, mutações e realidades sentidas e vividas de outras formas, em que o divergente toma o lugar do comum existir. Enfim… vida, vida constante “incapaz de se autorizar simplesmente a parar”. Assim é o cinema, assim somos nós (ou devíamos ser), em que o sonho não tem limites, é um fluxo constante (Orson Welles).

E enquanto uns sonham, fazendo com que outros sonhem, são acordados alvoroços e reveladas emoções,  cujo resultado nos parece às vezes contraditório. Por que razão não choramos apenas quando há tristeza? Por que razão sentimos um grito fechar-se quando todos os sonhos de vida de um protagonista morrem no ecrã? Por que razão aprendemos a pensar que a vida é o ponto de vista do guionista, do realizador… Aquela vida está à distância de uma outra pergunta: A nossa vida também daria um filme? Talvez o cinema possa ser a concretização de todas as vidas imaginadas, tornadas possível. E enquanto tudo isto vai acontecendo, o espetador apodera-se da obra, torna-a sua, mas só porque a obra se torna superior a tudo aquilo que esperava que viesse a acontecer. Assim é o cinema. Assim pode ser a vida.

Falar de um festival de cinema rural também é falar de público… desculpem, de espetadores! Não vá o mestre acordar e, publicamente, chamar-me à razão, perante os espetadores do Curt’Arruda, de que “(…) públicas são as cadeiras do cinema; são públicas. Agora, as pessoas que se sentam nelas são pessoas, verdadeiramente pessoas, e cada uma é distinta da outra” (Manoel de Oliveira, Diário de Notícias, 2011). Cada espetador completa o sonho inacabado dos autores que ousaram criar o espetáculo. No cinema, o único espetador impassível é aquele que não vê cinema. Por isso, o que vê espera ser respeitado, desafiado e seduzido, assim como o autor se respeitou, desafiou e foi seduzido ao criar a obra. E é este respeito pelos espetadores que se tem sentido por parte dos organizadores deste festival. Mais, é este respeito pela sua terra, levando o seu nome a outras terras, que também me tem feito refletir sobre a importância das autarquias no apoio às ideias e iniciativas dos jovens.

O caminho é difícil, às vezes muito difícil, mas a virtude está em tentar: “Um cheiro passa, uma nuvem desfaz-se e – um sonho? é muito mais imponderável, insubsistente, muito mais rapidamente dissipável que o cheiro e a nuvem. Mas tentemos” (Irene Lisboa, Solidão II, 1974). Tentemos… sempre, sempre.

Assim tem sido este festival de cinema rural a que os autores chamaram com mestria Curt’Arruda, não esquecendo, talvez em jeito de homenagem, respeito e muito orgulho, a vila que os viu nascer, que viu nascer este desafio.

E agora não é a razão que vos fala, mas o coração… Voem, voem! Vocês são filhos da terra dos sonhos. Eu cá estarei com muitas lágrimas nos olhos, não de tristeza, mas de orgulho, alegria e vontade de vos ver desejar a serem daqui, do mundo e voltarem a ser daqui, do Vale Encantado, de Arruda dos Vinhos.

Jorge da Cunha

4/dAAUoZR4fmSg85ZKrk8M70EOvQOg0yxF0W3HL4YjUm22rQ-pmEIxwYE